07/01/2019

A batalha física e emocional dos casais que não conseguem engravidar

O conceito de infertilidade para a mulher ou para o homem surge após um ano de tentativas de engravidar. Até lá, cada menstruação é uma frustração. Aos poucos, o que era para ser um evento feliz se transforma em batalha física e também emocional. 

 

Ao partir para uma forma de reprodução assistida, a esperança se renova, mas o casal depara com novas provações: desde o sentimento de fracasso passando pelo estresse causado pelos procedimentos médicos até custos que podem chegar a milhares de reais. 

 

Segundo Lia Dornelles, professora da Universidade de Caxias do Sul (UCS), a infertilidade “é uma situação de vida potencialmente traumática” que pode desencadear uma crise psicológica “que afeta todas as áreas da vida: a pessoal, o vínculo do casal, as relações sociais e familiares e, em alguns casos, o trabalho”. 

 

– Esse momento frequentemente tem sido comparado em intensidade a outras perdas, como a morte de um ser querido, um divórcio ou a perda de um emprego – compara a psicóloga. – A impossibilidade de engravidar por meio de relações sexuais e ter que se submeter aos tratamentos sem a garantia de sucesso gera nos casais sentimentos de menos-valia, impotência, raiva – acrescenta. 

 

Ao optarem por tratamentos, os casais mergulham em um mundo de jargões médicos e exames. O romantismo e a espontaneidade do sexo são trocados por uma lógica mais “mecânica”. O método com maior garantia de sucesso, a fertilização in vitro (FIV), é também o mais angustiante e impõe uma série de fases estressantes: estimulação da produção de óvulos por meio de medicações hormonais injetáveis, exames constantes de ultrassom, coleta de óvulos e espermatozoides, fertilização e, enfim, transferência do embrião ao útero. Neste momento, a vida do casal frequentemente se resume em obter sucesso no tratamento, uma aposta que pode inclusive ameaçar a relação. 

 

Lia enumera as angústias comuns: 

 

– Medo de repetir as tentativas, dos gastos com os procedimentos, do desgaste físico e psicológico, da ameaça de não poderem gerar um filho biológico e, às vezes, de romperem a relação caso não possam ter filhos. E, além disso, a intimidade do casal é compartilhada. A sexualidade sai do privado e torna-se “pública”, isto é, compartilhada com a equipe.

 

Especialista em terapia de família e de casal, a psicóloga e professora da PUCRS Débora Oliveira já tratou casais que desistiram do tratamento de fertilização e outros que abandonaram a relação. Para não sucumbir às dificuldades, ela sublinha a necessidade de o casal estar em sintonia desde o início: 

 

– Se o desejo de ter filho é só de uma pessoa e ela não tem problema de fertilidade, a situação fica muito desgastante. É comum casais romperem a relação ou criarem outras formas de lidarem com isso, como a própria infidelidade. Esse projeto de vida tem de estar bem claro e acordado entre os dois.

 

Na sonhada busca por um filho, um casal pode passar por inúmeros procedimentos e gastar fortunas (a fertilização in vitro pode custar de R$ 12 mil a R$ 25 mil). O tempo vira inimigo, pois, a partir dos 35 anos, a fertilidade da mulher sofre uma queda abrupta. E a pressão social tende a crescer, recaindo com mais força sobre a mulher. No entanto, as causas para a infertilidade são tão comuns nas mulheres como nos homens: 

 

– Trinta e cinco por cento das causas são femininas, 35% são masculinas, 20% são fatores associados e 10% são infertilidade sem causa, que é quando se esgotam os recursos de diagnóstico sem que haja um entendimento de o porquê o casal não engravidar. Mesmo nesses casos, há solução – explica a diretora e ginecologista da clínica Fertilitat Mariangela Badalotti.

 

Perda de controle do corpo

 

O sucesso da fertilização in vitro está ligado à geração de um número maior de óvulos do que o normal, por isso a mulher é estimulada, com medicações hormonais. Essas doses variam de caso a caso. A vendedora Carla Martinelli, 31 anos, de Sapucaia do Sul, chegou a tomar 47 injeções. 

 

– O tratamento acaba com o teu “psicológico”, você fica fora da casinha... Tudo é espera: que o organismo responda às medicações, que os embriões se desenvolvam, que a gravidez se confirme. Se algo dá errado, tem que começar tudo de novo – lembra ela, que está grávida de sete meses.

 

Para Carla, o momento mais estressante são os dias após a fecundação dos óvulos. O laboratório liga diariamente para informar como os embriões estão se desenvolvendo. Dos 17 óvulos gerados, cinco foram descartados, 12 fecundados. Restaram apenas dois embriões saudáveis:  

 

– Todo dia é aquela agonia. Você ouve que perdeu um, dois, e a sua ansiedade vai aumentando. Você não sabe se vai sobrar algum e, se não sobrar, vai ter que começar tudo desde o início.

 

O desequilíbrio emocional é acompanhado por uma sensação de perda de controle sobre o próprio corpo.

 

– A paciente recebe uma bomba de hormônios que pode alterar todo o organismo. Não é só uma alteração de humor, o corpo se transforma com inchaço, dores, incômodos. É uma perda da identidade corporal que a pessoa tinha até então. Isso acaba sendo importante: o quanto a paciente precisa estar disponível emocionalmente para receber tudo isso – explica a psicóloga Débora Oliveira. 

 

Não há receita para se blindar contra todas essas dificuldades, mas há caminhos para se fortalecer, como compartilhar a experiência com uma rede de apoio e se refugiar em atividades prazerosas como hobbies ou esportes. Como geralmente mulheres que estão querendo engravidar não podem tomar medicação psiquiátrica, a terapia é bastante importante, inclusive há clínicas de fertilidade que a oferecem. 

 

Em busca de um diagnóstico 

 

Até dar à luz, a jornalista Priscilla Portugal enfrentou uma inseminação artificial e três FIVs. Foram sete anos de lágrimas e consultas com sete médicos diferentes. Durante esse tempo, sentiu-se tão isolada que resolveu escrever sobre sua experiência no site cademeunenem.com.br, lançado no final de 2016. 

 

– Escrevi o diário da minha não gravidez para ajudar mulheres que não conseguiam engravidar, como eu, e para dividir minha dor com as pessoas. Vi um resultado lindo, uma sororidade incrível. Geralmente, não há outras pessoas da família passando por isso, pelo menos que você saiba, porque o assunto ainda é um supertabu. As pessoas não contam que têm dificuldade para engravidar, então você fica achando que é a única. Quando não tem diagnóstico, é pior ainda, porque você não sabe nem contra o que lutar – conta.

 

Por meio do site, Priscilla recebeu a indicação do médico que, enfim, diagnosticaria seu problema – eram vários, entre eles, endometrite e trombofilia. Não era um ginecologista, mas um imunologista. 

 

– Aprendi a lição: não dá para economizar com médico, porque é um caro que sai barato. Temos de ir em um de muita confiança – recomenda.

 

Priscilla recorreu a meditação, terapia, acupuntura e chegou a desistir de tudo e entrar na fila para adotar um bebê. Apesar de todo o sofrimento, não caiu em depressão. 

 

– O impacto emocional é fortíssimo, mas sempre tive o cuidado de ter uma ou duas atividades que me fazem muito bem. Comecei a fazer balé, que era um sonho de infância, e nunca parei de correr, nadar, viajar, sair com meu marido, festejar com amigos. Vejo muitas meninas que param tudo, achando que vão engravidar, que transam só com hora marcada. Isso só torna um processo que é muito doloroso ainda mais difícil – aconselha a jornalista. 

 

Uma das bandeiras levantadas por Priscilla em seu site é a importância de obter um diagnóstico antes de iniciar qualquer tratamento para engravidar. 

 

– Isso de ter de desencanar e relaxar para então engravidar é balela. Você engravida quando seu corpo está pronto, sua mente está pronta e você tem um diagnóstico. Não faça um tratamento só por fazer antes de saber o que você está tratando – diz Priscilla, enquanto amamentava o pequeno Raul, nascido em 22 de novembro.

 

A fertilização in vitro (FIV)

 

O processo

 

Na fertilização in vitro, o encontro do espermatozoide com o óvulo ocorre em laboratório, e não nas trompas da mulher. O sucesso está ligado à geração de um número maior de óvulos do que o normal, por isso a mulher é estimulada com medicações hormonais. As doses variam de caso a caso e podem durar, por exemplo, 20 dias, com várias aplicações diárias. Os óvulos são extraídos e, então, é feita a fertilização. Após o acompanhamento das primeiras fases das divisões do embrião, ele é transferido para o útero materno, onde deverá implantar-se e dar início à gestação. 

 

Indicação

 

A técnica surgiu para resolver o problema das mulheres que não têm as trompas ou apresentam alguma obstrução das trompas que impede a fecundação natural, sem condições de correção cirúrgica. Hoje, é indicada em casos de fator masculino, endometriose, fator imunológico e infertilidade sem causa aparente, bem como na falha de tratamentos anteriores mais simples, como inseminação artificial.

 

Taxa de sucesso

 

A idade feminina é o principal fator envolvido no sucesso do tratamento, porque a geração de bons embriões depende da qualidade dos óvulos. Para mulheres com até 35 anos, a FIV é eficaz entre 55% e 60% das vezes. 

 

A partir daí, a taxa cai progressivamente. Em mulheres com mais de 45 anos, o índice de sucesso é praticamente zero utilizando os próprios óvulos (é possível usar óvulos doados). A FIV é considerada o tratamento de reprodução humana com mais chances de sucesso.

 

Custo

 

Os tratamentos variam de R$ 12 mil a R$ 25 mil, conforme a quantidade de medicação e os procedimentos envolvidos. Às vezes, por exemplo, é preciso extrair o espermatozoide no testículo, e não na ejaculação. 

 

Tempo

 

Cada fertilização in vitro demora, em média, dois meses. 

 

Fonte: diretora e ginecologista do Fertilitat, Mariangela Badalotti.

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